segunda-feira, 9 de julho de 2012

Despedida

"E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil. 

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus. 

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo."

Rubem Braga


Je ne parlerai pas,
je ne penserai rien.
Mais un amour immense
entrera dans mon âme.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Coração aprisionado


Ninguém é de ninguém! Essa história de achar que o outro te pertence como uma propriedade ou algo que você compra em uma vitrine é a maior burrice que pode existir. Não se constrói um relacionamento saudável dessa maneira... Viver essa mentira só vai te fazer sofrer e perder um precioso tempo, que por experiência própria te fará muita falta depois. Fora a mágoa, o ressentimento e o ranço que podem ficar como consequências. O amor jamais será amor se cultivado dentro de uma jaula . Ele não cabe em uma bolsa, frasco ou pote de margarina: o que ele precisa é respirar liberdade. "Coração aprisionado não canta, não canta amor!"


Henrique Ferreira

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Doce tristeza

"Assim, minha tristeza voltando sempre, e me achando mais perdida aos meus olhos - como a todos os olhos que quisessem me encarar, se eu não tivesse sido condenada para sempre ao esquecimento de todos! - eu tinha cada vez mais fome de sua bondade. Com seus beijos e abraços amigos, era mesmo um céu, um escuro céu, onde eu entrava, e onde gostaria de ser deixada, pobre, surda, muda, cega. Já eu me acostumava. Eu nos via como duas boas crianças, livres para passear no Paraíso de tristeza."

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Insalubre

"Chega! Prometo que de hoje em diante, empreenderei todas as minhas forças nas fraquezas humanas. Serei uma péssima referência para os jovens, velhos, cães e o que mais tiver ao meu alcance.

O que depender de mim, influenciarei da pior maneira possível, em qualquer ocasião. Semearei o pessimismo, a intolerância, a hipocrisia, o desalento, a mesquinhez, o sarcasmo e o menosprezo.

Serei absurdamente atrevido em público, praticante ardoroso do politicamente incorreto e antiecológico até o osso! Distribuirei, sempre que possível, injúrias e chutes nas canelas.

Não deixarei escapulir a mísera oportunidade para corromper, denegrir e esfacelar a cultura, o senso de justiça, os ideais, a moral, a beleza e a candura alheia. Que assim seja!"

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Qasida (Siba)

lembro bem do momento em que parti 
só não sei quantas vezes retornei
como sempre, na hora em que cheguei 
me dei conta que errei voltando aqui
as ruínas da casa estão aí
só paredes em pé, não tem telhado
falta porta, está tudo escancarado
mas o ar não se mexe pra passar
já vi tudo, só falta acreditar
que o portão do retorno está trancado


não adianta tirar de onde não tem
nem tentar encaixar onde não cabe
sem saber alguém tenta, e quando sabe
já não dá nem um passo mais além
pois de trás para frente nada vem
o que foi já não é e nem será
e da frente pra trás, ninguém irá
desfazer o que fez, certo ou errado
vou deixar este canto abandonado
para sempre do jeito como está


me esparramo ao relento, o chão é torto
canta um grilo Escondido e mais ninguém
vou dormir neste abrigo que só tem
sede, fome, sujeira, desconforto
pra sonhar que acordei de um sonho morto
no quintal de uma casa onde eu podia
não correr contra o tempo enquanto via
teu sorriso indo e vindo num balanço
sem voltar pra você eu não descanso
minha casa é você e eu já sabia



A Servidão Moderna


À medida que a opressão se estende por todos os setores da vida, a revolta toma aspecto de uma guerra social. Os motins renascem e anunciam a futura revolução.

A destruição da sociedade mercantil totalitária não é um caso de opinião. É uma necessidade absoluta num mundo que já está condenado. Pois o poder está em todos os lados, deve ser por todas as partes e todo o tempo que devemos combatê-lo.

A reinvenção da linguagem, o transtorno permanente da vida cotidiana, a desobediência e a resistência são as palavras mágicas contra a ordem estabelecida. Mas para que dessa revolta surja uma revolução, é preciso reunir as subjetividades em uma frente comum.

É na unidade de todas as forças revolucionárias que devemos trabalhar. Isso só se pode conseguir quando temos consciência dos nossos fracassos do passado: nem o reformismo estéril, nem a burocracia totalitária não podem ser uma solução para nossa insatisfação. Trata-se de inventar novas formas de organização e de luta.

A auto gestão nas empresas e a democracia direta na escala comunal constituem as bases dessa nova organização que deve ser anti-hierárquica tanto na forma quanto no conteúdo. O poder não é pra ser conquistado é pra ser destruído!


terça-feira, 8 de maio de 2012


Largue as unhas do meu coração!

Soneto da Separação


"De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama
De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente"

terça-feira, 10 de abril de 2012

O escorpião

"Um mestre do Oriente viu quando um escorpião estava se afogando e decidiu tirá-lo da água, mas quando o fez, o escorpião o picou. Pela reação de dor, o mestre o soltou e o animal caiu de novo na água e estava se afogando de novo. O mestre tentou tirá-lo novamente e novamente o animal o picou. Alguém que estava observando se aproximou do mestre e lhe disse:
— Desculpe-me, mas você é teimoso! Não entende que todas às vezes que tentar tirá-lo da água ele irá picá-lo?
O mestre respondeu:
— A natureza do escorpião é picar, e isto não vai mudar a minha, que é ajudar.
Então, com a ajuda de uma folha o mestre tirou o escorpião da água e salvou sua vida.

Não mude sua natureza se alguém te faz algum mal; apenas tome precauções. Alguns perseguem a felicidade, outros a criam. Preocupe-se mais com sua consciência do que com a sua reputação. Porque sua consciência é o que você é, e sua reputação é o que os outros pensam de você. E o que os outros pensam, não é problema nosso... é problema deles."